Senti como se alguém tivesse chutado minha panturrilha: pode ser ruptura do tendão de Aquiles?

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Uma sensação súbita de pancada ou “chute” na parte de trás da perna, mesmo sem ninguém ter encostado, é uma descrição frequente em pacientes com ruptura do tendão de Aquiles.

Algumas pessoas também relatam um estalo no momento da lesão, seguido de dificuldade para caminhar, impulsionar o corpo para frente ou ficar na ponta do pé.

Mas nem toda dor na panturrilha ou no tornozelo representa uma ruptura do tendão.

A avaliação precisa relacionar o mecanismo da lesão, a perda de função, o exame físico e, quando necessário, os exames de imagem.

O que é o tendão de Aquiles?

O tendão de Aquiles conecta a musculatura da panturrilha ao calcâneo.

Ele transmite a força produzida principalmente pelos músculos gastrocnêmio e sóleo para o pé e participa de movimentos fundamentais da marcha.

Essa estrutura é particularmente importante na flexão plantar, movimento utilizado para empurrar o chão durante a caminhada, corrida, salto e subida na ponta dos pés.

Quando ocorre uma ruptura, essa transmissão de força pode ser comprometida.

Por isso, a avaliação não considera apenas a presença de dor. Também procura entender quanto da função mecânica do conjunto músculo-tendão foi afetada.

Como a ruptura costuma acontecer?

Muitas rupturas acontecem durante movimentos que submetem o tendão a uma carga súbita.

Entre os mecanismos possíveis estão:

  • aceleração ou arrancada;
  • mudança brusca de direção;
  • salto;
  • movimento inesperado do tornozelo;
  • contração intensa da musculatura da panturrilha.

A ruptura pode ocorrer durante atividade esportiva, mas não é exclusiva de atletas.

Características do tendão, idade, nível de atividade e outras condições individuais também participam do contexto da lesão.

Por isso, não é adequado atribuir a ruptura simplesmente ao fato de a pessoa ter utilizado “força demais”.

Quais sinais podem levantar suspeita?

Além da sensação de pancada ou estalo, podem ocorrer:

  • dor na região posterior do tornozelo ou panturrilha;
  • inchaço;
  • dificuldade para caminhar;
  • perda de força para empurrar o chão;
  • dificuldade para ficar na ponta do pé;
  • alteração palpável no trajeto do tendão.

A intensidade da dor pode variar.

Isso é importante porque a redução da dor depois dos primeiros dias não significa necessariamente que a função do tendão foi restabelecida.

Se a pessoa consegue caminhar, o tendão pode estar rompido?

Sim.

Conseguir apoiar o pé ou dar alguns passos não exclui uma ruptura do tendão de Aquiles.

Outras estruturas musculares e tendíneas também participam da flexão plantar do tornozelo e podem permitir algum movimento mesmo quando o Aquiles está rompido.

Por isso, a capacidade de caminhar isoladamente não deve ser utilizada para descartar a lesão.

O exame precisa avaliar especificamente a continuidade e a função do mecanismo formado pela musculatura da panturrilha e pelo tendão.

Como o diagnóstico é feito?

Em apresentações típicas, a história e o exame físico possuem papel central.

O médico avalia o mecanismo da lesão, a região dolorosa, a continuidade do tendão, a força e testes clínicos específicos.

Um dos testes conhecidos é o teste de Thompson, realizado por meio da compressão da musculatura da panturrilha enquanto se observa a resposta do pé.

Alterações nesse teste podem aumentar a suspeita de ruptura.

Entretanto, nenhum achado deve ser interpretado fora do contexto clínico.

É necessário fazer ressonância magnética?

Nem sempre.

Em casos com história e exame físico característicos, o diagnóstico pode ser estabelecido clinicamente.

Quando existe dúvida, apresentação atípica ou necessidade de caracterizar melhor a lesão, exames de imagem podem ser utilizados.

A ultrassonografia pode fornecer informações sobre:

  • continuidade do tendão;
  • localização da ruptura;
  • relação entre os cotos tendíneos;
  • comportamento do tendão durante movimentos, em determinadas avaliações.

A ressonância magnética também pode ser útil em situações selecionadas, principalmente quando o diagnóstico permanece incerto ou quando é necessário avaliar características adicionais dos tecidos.

O exame deve ser escolhido de acordo com a pergunta clínica, e não solicitado automaticamente em todos os casos.

Toda ruptura precisa de cirurgia?

Não.

Rupturas agudas do tendão de Aquiles podem ser tratadas por estratégias cirúrgicas ou não cirúrgicas, dependendo das características da lesão e do paciente.

Protocolos funcionais modernos modificaram de forma importante o tratamento não cirúrgico, com mobilização e progressão de carga estruturadas em situações selecionadas.

A decisão pode considerar:

  • características da ruptura;
  • tempo desde a lesão;
  • condições clínicas;
  • demanda funcional;
  • possibilidade de seguir adequadamente o protocolo de reabilitação;
  • riscos relacionados a cada estratégia.

O tratamento cirúrgico também possui riscos, incluindo complicações da ferida, infecção e lesões de estruturas próximas.

Por isso, a presença de uma ruptura não significa automaticamente indicação cirúrgica.

O que acontece quando a ruptura é diagnosticada tardiamente?

Esse é um cenário diferente da ruptura aguda.

Quando uma ruptura permanece sem diagnóstico ou tratamento adequado por um período prolongado, podem ocorrer alterações na relação entre os cotos tendíneos e na unidade músculo-tendínea.

Dependendo do caso, podem ser encontrados:

  • afastamento entre os cotos do tendão;
  • formação de tecido cicatricial entre as extremidades;
  • alongamento da unidade músculo-tendínea;
  • redução de força de flexão plantar;
  • dificuldade de impulsão durante a marcha;
  • alterações na qualidade do tecido disponível para reparo.

Por isso, uma ruptura crônica não deve ser interpretada simplesmente como uma ruptura aguda que permaneceu igual ao longo do tempo.

O cenário anatômico pode ter se modificado.

Por que uma ruptura crônica pode exigir uma reconstrução diferente?

Em uma ruptura recente, pode existir uma situação anatômica que permita aproximação e reparo das extremidades do tendão em casos selecionados.

Quando existe atraso importante, essa relação pode mudar.

O afastamento entre os cotos, a qualidade do tecido, o tempo transcorrido e a condição da unidade músculo-tendínea influenciam o planejamento.

Em determinados casos crônicos, uma sutura direta pode não ser suficiente para restaurar adequadamente a continuidade e a tensão do mecanismo.

Por isso, diferentes técnicas reconstrutivas foram descritas, incluindo procedimentos de avanço, transferências tendíneas e enxertos.

A escolha não depende apenas do tempo transcorrido. É necessário avaliar o tamanho do defeito, a qualidade do tecido, a função residual e as características do paciente.

A literatura sobre rupturas crônicas ainda apresenta evidência de qualidade limitada, e não existe uma técnica única aplicável a todos os casos.

Por que o comprimento do tendão importa?

O objetivo não é apenas obter continuidade entre as extremidades.

O tendão de Aquiles faz parte de uma unidade mecânica responsável por transmitir força da panturrilha para o pé.

Quando essa unidade permanece excessivamente alongada, pode existir perda de eficiência na transmissão de força, mesmo que haja continuidade do tecido.

Isso pode se manifestar como dificuldade para realizar flexão plantar com força, subir na ponta do pé ou produzir impulsão adequada durante a marcha.

Por isso, em casos tardios ou complexos, a avaliação precisa considerar continuidade, comprimento, tensão, força e função.

E depois do tratamento?

A recuperação não depende apenas da cicatrização do tendão.

A reabilitação participa da recuperação de mobilidade, força, controle muscular e função.

Depois de um período de proteção, a progressão precisa respeitar a estratégia de tratamento utilizada e a evolução clínica.

O retorno às atividades deve considerar não apenas o tempo transcorrido desde a lesão, mas também a capacidade funcional recuperada.

Em casos crônicos ou reconstruções mais complexas, o planejamento pode ser diferente daquele utilizado em uma ruptura aguda.

FAQ: perguntas frequentes sobre ruptura do tendão de Aquiles

1. Sentir um “chute” na panturrilha significa que rompi o tendão?

Não necessariamente. Essa é uma descrição frequente nas rupturas do Aquiles, mas outras lesões também podem produzir dor súbita nessa região. O diagnóstico depende da avaliação clínica.

2. Se eu consigo caminhar, o tendão está intacto?

Não necessariamente. Alguns pacientes conseguem caminhar mesmo com ruptura, porque outras estruturas também participam do movimento do tornozelo.

3. Toda ruptura do Aquiles precisa de ressonância?

Não. Em apresentações típicas, história e exame físico podem ser suficientes. Ultrassonografia ou ressonância podem ser utilizadas quando existe uma dúvida específica a ser esclarecida.

4. Toda ruptura precisa de cirurgia?

Não. Existem estratégias cirúrgicas e não cirúrgicas para rupturas agudas. A escolha depende das características da lesão, do paciente e do protocolo de reabilitação disponível.

5. O que muda quando a ruptura é descoberta meses depois?

O cenário anatômico pode ser diferente. Pode existir afastamento entre os cotos, alongamento da unidade músculo-tendínea e alteração da qualidade dos tecidos. Por isso, a avaliação e as possibilidades de reconstrução podem ser diferentes das utilizadas em uma ruptura recente.

Conclusão

A ruptura do tendão de Aquiles pode acontecer de forma súbita e nem sempre impede completamente a pessoa de caminhar.

O diagnóstico depende da combinação entre mecanismo da lesão, exame físico e, quando necessário, exames de imagem.

Nas rupturas agudas, estratégias cirúrgicas e não cirúrgicas podem ser consideradas conforme o caso.

Quando o diagnóstico ocorre tardiamente, porém, o problema pode deixar de ser apenas uma interrupção da continuidade do tendão. Afastamento entre os cotos, comprimento da unidade músculo-tendínea, qualidade do tecido, transmissão de força e função passam a fazer parte da análise.

Nesses casos, compreender a estrutura atual é fundamental para definir se existe necessidade de reconstrução e qual estratégia pode ser considerada.

Referências

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Kadakia AR, Dekker RG 2nd, Ho BS. Acute Achilles Tendon Ruptures: An Update on Treatment. J Am Acad Orthop Surg. 2017;25(1):23-31. doi:10.5435/JAAOS-D-15-00187.

Azam MT, Butler JJ, Weiss MB, Ubillus HA, Kirschner N, Mercer NP, Kennedy JG. Surgical Management of Chronic Achilles Tendon Ruptures: A Systematic Review and Proposed Treatment Algorithm. Foot Ankle Orthop. 2023;8(4):24730114231200491. doi:10.1177/24730114231200491.

Dr. Igor Empinotti Filho
CRM-PR 46228 | RQE 34157