Depois da fratura, meu pé ficou apontando para dentro ou para fora: pode ser alteração de rotação?

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Depois da recuperação de uma fratura do fêmur ou da tíbia, algumas pessoas percebem uma mudança na posição do membro ao voltar a caminhar. Um dos pés parece apontar mais para dentro ou para fora, ou a marcha parece diferente daquela existente antes do trauma.

Uma das possibilidades é uma alteração rotacional do membro. Quando uma fratura consolida com uma relação anatômica diferente da esperada entre os segmentos ósseos, pode existir uma consolidação viciosa, também chamada de malunion.

Entretanto, observar a direção do pé não é suficiente para estabelecer esse diagnóstico. É necessário compreender onde está a alteração, qual sua magnitude e se ela realmente interfere na função.

O que significa malrotação?

Nos ossos longos, como fêmur e tíbia, o alinhamento não é analisado apenas de frente ou de lado.

Também existe um componente rotacional.

Uma forma simples de compreender é imaginar o osso como um eixo: mesmo que ele pareça relativamente alinhado em determinadas radiografias, uma extremidade pode estar girada em relação à outra.

Quando essa relação se modifica após a consolidação de uma fratura, pode existir uma deformidade rotacional.

A posição do pé mostra exatamente quanto o osso rodou?

Não.

A direção do pé durante a marcha é resultado da interação entre diferentes segmentos do membro inferior. Quadril, fêmur, tíbia, tornozelo e o próprio pé participam dessa orientação.

Além disso, depois de uma fratura, o paciente pode desenvolver compensações na forma de caminhar.

Por isso, perceber que um pé aponta mais para dentro ou para fora pode levantar uma hipótese, mas não permite determinar sozinho se existe malrotação nem em qual segmento ela está localizada.

Toda diferença entre os dois membros é anormal?

Não.

Existe variação anatômica entre as pessoas e também pode haver alguma assimetria entre os dois membros sem que isso represente necessariamente uma condição patológica.

A informação ganha maior relevância quando a mudança surgiu depois do trauma e está associada a alteração da marcha, desconforto, dificuldade funcional ou percepção clara de que o membro passou a se posicionar de maneira diferente.

Uma fratura pode consolidar e ainda assim ficar rodada?

Sim.

Consolidação e alinhamento são conceitos diferentes.

Dizer que uma fratura consolidou significa que ocorreu união óssea. Isso não significa necessariamente que todas as relações anatômicas entre os fragmentos tenham sido restauradas.

Uma consolidação viciosa pode envolver alterações de:

  • comprimento;
  • angulação;
  • rotação;
  • translação.

Mais de um desses componentes também pode estar presente ao mesmo tempo.

Por isso, diante de uma sequela pós-traumática, não basta perguntar apenas se o osso “colou”. Também é necessário avaliar em qual posição ele consolidou e como o membro está funcionando.

Como uma alteração de rotação pode afetar a função?

A repercussão varia entre os pacientes e depende, entre outros fatores, do osso envolvido, da magnitude da alteração e da capacidade de compensação.

Algumas pessoas apresentam pouca repercussão funcional. Outras podem perceber mudanças na marcha, desconforto, dificuldade em determinadas atividades ou sensação de que o membro está posicionado de maneira diferente.

Por isso, uma medida encontrada em um exame não deve ser analisada isoladamente. A relação entre deformidade, sintomas e função é fundamental.

Radiografia consegue demonstrar malrotação?

A radiografia é fundamental na avaliação de uma consolidação viciosa, especialmente para analisar angulação, comprimento e outras características do osso.

A rotação, porém, apresenta particularidades.

Quando existe necessidade de avaliar ou quantificar uma possível deformidade rotacional, a tomografia computadorizada pode ser utilizada em casos selecionados, inclusive com comparação entre os membros.

A escolha do método depende do osso envolvido e da pergunta clínica que precisa ser respondida.

Comprimento, angulação e rotação são o mesmo problema?

Não.

São componentes diferentes de uma deformidade.

Um membro pode apresentar diferença de comprimento sem alteração rotacional significativa. Em outro paciente, a principal alteração pode estar na rotação. Também podem existir combinações entre rotação, angulação, translação e comprimento.

É por isso que a avaliação de uma consolidação viciosa precisa considerar o membro em diferentes planos, relacionando a anatomia encontrada nos exames com a marcha e a função.

Toda malrotação precisa ser corrigida?

Não.

Encontrar uma diferença rotacional não determina automaticamente a necessidade de uma nova cirurgia.

A decisão depende de fatores como:

  • magnitude e localização da deformidade;
  • sintomas;
  • repercussão sobre a marcha;
  • limitação funcional;
  • presença de outras deformidades associadas;
  • demandas individuais do paciente.

O objetivo da avaliação é compreender se a alteração estrutural encontrada realmente explica o problema funcional apresentado.

FAQ: perguntas frequentes sobre alteração de rotação depois de uma fratura

1. Meu pé ficou mais apontado para fora depois da fratura. Isso prova que o osso consolidou errado?

Não. A direção do pé é influenciada por diferentes segmentos do membro e também por compensações da marcha.

2. Uma fratura pode estar consolidada e ainda existir malrotação?

Sim. União óssea e restauração do alinhamento anatômico são conceitos diferentes.

3. Uma radiografia aparentemente boa exclui malrotação?

Não necessariamente. A avaliação da rotação possui particularidades e, em casos selecionados, outros métodos de imagem podem ser necessários.

4. Malrotação sempre causa dor?

Não. A repercussão clínica varia conforme características da deformidade e do paciente.

5. Encontrar uma alteração de rotação significa que será necessária outra cirurgia?

Não. A existência de uma deformidade não define, isoladamente, a conduta. Sintomas, marcha, função e características estruturais precisam ser analisados em conjunto.

Conclusão

Quando um membro passa a parecer mais rodado depois de uma fratura, principalmente se essa mudança acompanha alteração da marcha ou perda funcional, a avaliação precisa ir além da pergunta “o osso consolidou?”.

É necessário analisar como ele consolidou.

Comprimento, angulação, rotação e translação são componentes diferentes do alinhamento. Identificar qual deles está alterado e relacioná-lo à função permite compreender se existe uma sequela estrutural relevante e qual é sua repercussão para aquele paciente.

Referências

Cherkaoui M, Onsea J, Thielman L, et al. Management of rotational malalignment following operative treatment of fractures of the lower extremities. A scoping review. Injury. 2024;55(11):111903. doi:10.1016/j.injury.2024.111903.

Patel I, Young J, Washington A, Vaidya R. Malunion of the Tibia: A Systematic Review. Medicina (Kaunas). 2022;58(3):389. doi:10.3390/medicina58030389.

Dr. Igor Empinotti Filho
CRM-PR 46228 | RQE 34157