A pessoa pisa em falso, o tornozelo vira, surge dor e o local incha. Com o passar dos dias ou semanas, o edema diminui e a caminhada melhora.
Mas nem sempre a função volta ao que era antes.
Meses depois, alguns pacientes ainda apresentam dor durante determinadas atividades, inchaço recorrente ou sensação de que o tornozelo “vira” com facilidade. Quando isso acontece, é importante não concluir simplesmente que a entorse está demorando mais para melhorar.
A persistência dos sintomas pode exigir uma nova avaliação para compreender qual estrutura continua comprometida e por que a função não evoluiu como esperado.
O que acontece durante uma entorse do tornozelo?
Na entorse lateral, que é uma apresentação frequente, o movimento pode lesionar estruturas ligamentares responsáveis por contribuir para a estabilidade do tornozelo.
A recuperação, entretanto, não depende apenas da cicatrização de um ligamento.
Mobilidade, força, controle neuromuscular, equilíbrio e estabilidade participam do retorno funcional. Além disso, o mesmo trauma pode comprometer outras estruturas.
Por isso, dois pacientes com entorses aparentemente semelhantes podem apresentar evoluções diferentes.
O que é instabilidade crônica do tornozelo?
Depois de uma entorse, algumas pessoas passam a apresentar episódios recorrentes de falseio ou novas entorses e relatam falta de confiança para apoiar o membro em determinadas situações.
A instabilidade crônica do tornozelo é uma condição complexa e não deve ser interpretada simplesmente como um “ligamento que não cicatrizou”.
Podem existir componentes mecânicos e funcionais, incluindo alterações de estabilidade, controle neuromuscular e percepção do movimento articular.
Por que algumas pessoas continuam apresentando episódios de falseio?
Uma entorse prévia é um fator importante no histórico de novos episódios.
Mas a recorrência não depende de um único mecanismo. Alterações de força, equilíbrio, controle do movimento e estabilidade podem participar do quadro.
Por isso, quando o tornozelo continua virando depois da recuperação inicial, o objetivo é compreender quais componentes permanecem alterados.
Uma entorse pode comprometer cartilagem e osso?
Pode.
Durante o trauma, as forças não atingem exclusivamente os ligamentos. A superfície articular também pode ser submetida a impacto.
Entre as alterações possíveis estão as lesões osteocondrais do tálus, que envolvem a cartilagem articular e o osso subcondral.
Essas lesões podem estar associadas a dor persistente e outros sintomas depois de um trauma do tornozelo, mas sua presença precisa ser confirmada por avaliação clínica e exames apropriados.
O que significa o tornozelo “travar” depois de uma entorse?
É necessário entender exatamente o que o paciente chama de travamento.
Algumas pessoas utilizam essa palavra para descrever dor ou rigidez. Outras percebem sintomas mecânicos durante determinados movimentos.
Essa distinção é importante porque “travamento” é uma descrição do paciente, e não um diagnóstico.
A investigação procura determinar se existe apenas uma limitação provocada pela dor ou se alguma alteração intra-articular pode estar participando do quadro.
Tendões também podem estar envolvidos?
Sim.
Diferentes tendões passam ao redor do tornozelo e podem ser comprometidos durante o trauma ou tornar-se sintomáticos ao longo da recuperação.
A localização da dor, o movimento que desencadeia o sintoma e o exame físico ajudam a diferenciar uma possível alteração tendínea de outras causas.
Dor persistente significa que o ligamento não cicatrizou?
Não necessariamente.
Dor meses depois de uma entorse pode ter diferentes origens. Entre as possibilidades consideradas de acordo com o caso estão:
- instabilidade;
- lesões osteocondrais;
- alterações tendíneas;
- rigidez;
- alterações intra-articulares.
Por isso, repetir apenas o diagnóstico inicial de “entorse” pode ser insuficiente quando a evolução deixou de seguir o esperado.
E se o tornozelo parece ter mudado de posição?
Quando existem alterações persistentes de função, principalmente em pacientes com histórico de outros traumas, fraturas ou deformidades, o alinhamento também pode fazer parte da avaliação.
A forma como o membro está alinhado influencia a distribuição das cargas e pode contribuir para determinados padrões de sobrecarga ou instabilidade.
Isso não significa que todo caso de entorse recorrente seja provocado por uma deformidade. Significa que, em situações selecionadas, analisar apenas os ligamentos pode não explicar todo o problema.
Quando uma nova avaliação merece ser considerada?
Principalmente quando persistem:
- dor;
- inchaço recorrente;
- novas entorses;
- episódios de falseio;
- dificuldade para retornar às atividades habituais;
- limitação de mobilidade;
- sintomas mecânicos.
A evolução ao longo do tempo é uma informação importante. Um quadro que inicialmente melhora e depois permanece limitado pode exigir uma investigação diferente daquela realizada nos primeiros dias após o trauma.
Qual exame pode ser necessário?
Não existe um exame obrigatório para todos os pacientes.
Radiografias podem ser utilizadas para avaliar estruturas ósseas e determinadas características do alinhamento. Dependendo da hipótese clínica, outros métodos de imagem podem ser necessários para analisar cartilagem, osso subcondral, ligamentos ou tendões.
A escolha do exame deve responder a uma hipótese levantada pela história clínica e pelo exame físico.
FAQ: perguntas frequentes sobre dor persistente após entorse
1. É normal o tornozelo ainda doer meses depois de uma entorse?
Alguns pacientes apresentam sintomas prolongados, mas uma dor persistente não deve ser automaticamente considerada parte normal da recuperação. Quando a função não evolui como esperado, uma reavaliação pode ser necessária.
2. Se o tornozelo continua virando, significa que o ligamento rompeu completamente?
Não. A instabilidade pode envolver diferentes componentes mecânicos e funcionais.
3. Uma entorse pode causar lesão na cartilagem?
Pode. Lesões osteocondrais do tálus estão entre as alterações que podem ocorrer associadas a traumas do tornozelo.
4. Todo paciente com dor persistente precisa fazer ressonância?
Não. A escolha do exame depende da hipótese clínica e das estruturas que precisam ser avaliadas.
5. Dor meses depois significa que vou precisar operar?
Não. A persistência dos sintomas não determina, isoladamente, a necessidade de tratamento cirúrgico.
Conclusão
Quando dor, falseio, edema ou limitação continuam meses depois de uma entorse, o diagnóstico inicial precisa ser relacionado à evolução.
Ligamentos, cartilagem, osso subcondral, tendões e controle funcional podem participar do quadro. Em casos selecionados, características do alinhamento e da distribuição de carga também precisam ser consideradas.
Mais do que perguntar por que “a entorse não sarou”, a avaliação procura entender qual alteração permanece e por que o tornozelo não recuperou a estabilidade e a função esperadas.
Referências
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Gribble PA, Bleakley CM, Caulfield BM, et al. Evidence review for the 2016 International Ankle Consortium consensus statement on the prevalence, impact and long-term consequences of lateral ankle sprains. Br J Sports Med. 2016;50(24):1496-1505. doi:10.1136/bjsports-2016-096189.
Dr. Igor Empinotti Filho
CRM-PR 46228 | RQE 34157


