Depois de uma fratura ou cirurgia ortopédica, algum grau de dor pode fazer parte da recuperação.
Mas existe uma situação diferente: a lesão aparentemente evolui, enquanto a dor permanece intensa e acompanhada de outras alterações que parecem ultrapassar o esperado para aquele estágio da recuperação.
Em determinados pacientes, esse conjunto de manifestações pode levantar a possibilidade de síndrome dolorosa regional complexa, frequentemente abreviada como SDRC ou CRPS, na literatura internacional.
A condição é menos frequente do que outras causas de dor persistente depois de trauma ou cirurgia, e seu diagnóstico exige cautela.
Dor persistente, isoladamente, não significa síndrome dolorosa regional complexa.
O que caracteriza essa síndrome?
A SDRC é uma condição dolorosa que costuma acometer uma extremidade e pode surgir depois de trauma, fratura ou procedimento cirúrgico.
Uma de suas características é a presença de dor regional persistente desproporcional, em intensidade ou duração, ao curso esperado do evento desencadeante.
Entretanto, o quadro não é definido apenas pela intensidade da dor.
Também podem existir alterações sensitivas, vasomotoras, sudomotoras, motoras e tróficas.
Isso significa que a avaliação procura um conjunto de sintomas e sinais, e não uma manifestação isolada.
Que tipo de alteração pode ocorrer?
Dependendo do caso, podem aparecer:
- hipersensibilidade ao toque ou à dor;
- sensação de queimação;
- diferença de temperatura entre os membros;
- mudança de coloração da pele;
- edema;
- alteração da transpiração;
- rigidez;
- redução de movimento ou força;
- alterações na pele, unhas ou pelos.
Nem todo paciente apresenta todas essas manifestações.
Além disso, vários desses achados também podem aparecer em outras condições. Por isso, nenhum deles, isoladamente, confirma a síndrome.
O que significa dor “desproporcional”?
Esse termo precisa ser interpretado dentro do contexto clínico.
Não existe um número em uma escala de dor que determine sozinho quando um sintoma é desproporcional.
Uma fratura grave, uma cirurgia extensa, uma infecção ou uma complicação mecânica podem naturalmente produzir dor importante.
Por isso, a avaliação considera o mecanismo da lesão, o tempo transcorrido, a evolução esperada, as características da dor e os demais sinais encontrados no membro.
Mais importante do que perguntar apenas “quanto dói?” é compreender se a intensidade e o comportamento da dor são compatíveis com o que está acontecendo estruturalmente e com a fase de recuperação do paciente.
Como é feito o diagnóstico?
Um dos sistemas utilizados são os Critérios de Budapeste.
Eles foram desenvolvidos para aumentar a precisão do diagnóstico em relação aos critérios anteriores, que apresentavam menor especificidade e maior possibilidade de classificar como SDRC pacientes com outras condições dolorosas.
A avaliação considera sintomas relatados pelo paciente e sinais encontrados no exame físico em diferentes categorias:
- sensitiva;
- vasomotora;
- sudomotora/edema;
- motora/trófica.
Além de preencher os critérios clínicos necessários, é fundamental que não exista outro diagnóstico que explique melhor os sinais e sintomas apresentados.
Esse último ponto é particularmente importante em pacientes que passaram por fraturas ou cirurgias ortopédicas.
Por que é tão importante excluir outras causas?
Porque dor persistente depois de uma fratura ou cirurgia pode ter diferentes explicações.
Dependendo do caso, pode ser necessário investigar:
- infecção;
- atraso de consolidação ou não consolidação;
- consolidação em posição inadequada;
- problemas relacionados aos implantes;
- lesões nervosas;
- compressões neurológicas;
- rigidez articular;
- outras complicações estruturais.
Por isso, antes de atribuir uma recuperação dolorosa à SDRC, é necessário relacionar sintomas, exame físico, estrutura óssea, estabilidade, consolidação e evolução clínica.
A síndrome dolorosa regional complexa não deve se transformar em uma explicação automática para qualquer recuperação dolorosa ou mais lenta do que o esperado.
Exames confirmam a síndrome?
Não existe um exame laboratorial ou de imagem isolado que confirme a SDRC em todos os pacientes.
O diagnóstico é predominantemente clínico e baseado no conjunto de sinais e sintomas.
Radiografias, exames laboratoriais, ressonância magnética e outros métodos podem ser utilizados conforme o caso, principalmente para investigar diagnósticos diferenciais ou alterações associadas.
Por exemplo, diante de um paciente que permanece com dor importante depois de uma fratura, os exames podem ser necessários para avaliar consolidação, alinhamento, condição dos implantes ou sinais que levantem suspeita de infecção.
Portanto, um achado isolado em um exame não deve ser interpretado como prova da síndrome.
Por que reconhecer o problema é importante?
Porque a SDRC pode produzir repercussões importantes sobre movimento, força, mobilidade e função do membro.
Ao mesmo tempo, estabelecer esse diagnóstico de maneira precipitada pode fazer com que outra causa para a dor deixe de ser adequadamente investigada.
Por isso, o raciocínio possui duas etapas igualmente importantes: reconhecer quando o conjunto clínico é compatível com SDRC e verificar se existe outra condição ortopédica ou neurológica capaz de explicar melhor a evolução.
Quando o diagnóstico é estabelecido, as diretrizes enfatizam uma abordagem individualizada e direcionada à recuperação funcional, frequentemente com participação de diferentes áreas da saúde.
FAQ: perguntas frequentes sobre síndrome dolorosa regional complexa
1. Dor forte depois de uma fratura significa que tenho SDRC?
Não. Fraturas podem produzir dor intensa por diferentes motivos. A SDRC exige um conjunto específico de sintomas e sinais, além da ausência de outro diagnóstico que explique melhor o quadro.
2. Mudança de cor ou temperatura do membro pode acontecer?
Sim. Alterações de temperatura e coloração podem fazer parte da síndrome em determinados pacientes, mas também podem ocorrer em outras condições e não confirmam o diagnóstico isoladamente.
3. Existe um exame de sangue que confirme SDRC?
Não. Não existe um exame laboratorial isolado capaz de confirmar a síndrome. O diagnóstico é predominantemente clínico e utiliza critérios específicos.
4. A síndrome pode surgir depois de uma cirurgia?
Sim. A SDRC pode ocorrer depois de diferentes eventos desencadeantes, incluindo traumas, fraturas e procedimentos cirúrgicos.
5. Por que o diagnóstico deve ser cuidadoso?
Porque infecção, problemas de consolidação, alterações relacionadas aos implantes, lesões nervosas, rigidez e outras complicações podem produzir dor e perda funcional depois de uma fratura ou cirurgia. Essas possibilidades precisam ser consideradas antes de atribuir o quadro à SDRC.
Conclusão
Dor persistente depois de uma fratura ou cirurgia não deve ser automaticamente considerada normal, mas também não significa automaticamente síndrome dolorosa regional complexa.
Quando a dor parece incompatível com a evolução esperada e está associada a alterações sensitivas, temperatura, coloração, edema, mobilidade ou função, uma avaliação mais detalhada pode ser necessária.
O diagnóstico depende do conjunto clínico e da aplicação de critérios específicos. Em pacientes ortopédicos, existe ainda uma etapa fundamental: avaliar se consolidação, alinhamento, estabilidade, implantes, infecção ou outras complicações estruturais podem explicar melhor o quadro.
Referências
Harden RN, Bruehl S, Perez RSGM, et al. Validation of proposed diagnostic criteria (the “Budapest Criteria”) for Complex Regional Pain Syndrome. Pain. 2010;150(2):268-274. doi:10.1016/j.pain.2010.04.030.
Harden RN, McCabe CS, Goebel A, et al. Complex Regional Pain Syndrome: Practical Diagnostic and Treatment Guidelines, 5th Edition. Pain Med. 2022;23(Suppl 1). doi:10.1093/pm/pnac046.
Dr. Igor Empinotti Filho
CRM-PR 46228 | RQE 34157


